Aforismos [01]
Sobre a batalha entre corpo e alma
3 de janeiro de 2026
Por Samuel Alves
Um dia desses estava lendo o livro “Meditações” de Marco Aurélio e fiquei intrigado e confuso com o seguinte trecho:
“É vergonhoso que, nesta vida, seu corpo não desista da luta, mas que sua alma deve fazê-lo primeiro.”
Não entendi nada e fui pesquisar, eis aqui algumas respostas e reflexões que encontrei:
1. O que representa o "Corpo que não desiste da luta"?
- O Contexto: O corpo físico, mesmo em sofrimento, dor, ou grande cansaço, tem um instinto de sobrevivência e resiliência biológica. Ele é, em essência, a ferramenta que nos mantém vivos e em movimento.
- O Sentido Tangível: O corpo pode ser a sua saúde, energia, a sua capacidade de estar presente ou de realizar tarefas físicas. Ele aguenta horas de trabalho, noites mal dormidas, dor crônica, dietas rigorosas, etc., e continua operando. O corpo, mecanicamente, é muito mais difícil de quebrar do que a mente imagina.
2. O que representa a "Alma que deve fazê-lo primeiro" (desistir)?
- O Contexto: Para os estoicos, a "alma" ou a faculdade racional é a nossa mente, nosso julgamento, nosso caráter e nossa capacidade de escolher como reagir ao mundo. É o único domínio que está verdadeiramente sob nosso controle.
- O Sentido Tangível: É o ato de desistência mental. É a mente que se rende ao desespero, à autopiedade, ao medo, ou à preguiça antes mesmo que a condição física (o corpo) esteja realmente no limite. É a mente que diz "não aguento mais" quando o corpo ainda tem reservas.
3. A "Vergonha" (O Julgamento Estoico)
- O Contexto: A palavra "vergonhoso" aqui não é sobre constrangimento social, mas sobre o desvio do dever moral ou racional. O maior dever do estoico é manter sua faculdade racional em ordem.
- O Sentido Tangível: É uma falha moral ou existencial. A maior tragédia é quando você tem as capacidades físicas (o corpo) para continuar agindo com virtude e razão, mas você escolhe parar por causa de um julgamento mental errôneo (o medo, a queixa, a preguiça).
Em resumo: O poder da nossa mente (alma) para desistir é, ironicamente, muito maior e mais rápido do que a resiliência padrão da nossa máquina física (corpo). Logo a perseverança e a virtude devem ser a escolha mais sábia ao invés da rendição.